Projeto da UnionPay permitirá que turistas chineses paguem em estabelecimentos brasileiros usando aplicativos e contas mantidas na China; iniciativa ganha peso em meio à disputa comercial com os Estados Unidos
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A China prepara uma nova conexão com o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. A UnionPay International, rede de pagamentos chinesa, desenvolve um projeto-piloto para permitir que usuários de aplicativos chineses façam pagamentos em estabelecimentos brasileiros por meio de códigos QR do Pix, utilizando recursos de suas próprias contas na China. A iniciativa, divulgada em agosto de 2026, aproxima ainda mais os sistemas financeiros dos dois países e ocorre em meio à disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos envolvendo justamente o Pix.
Na primeira etapa, usuários do aplicativo da UnionPay e de aplicativos de bancos chineses conectados à rede poderão escanear o código de pagamento de um estabelecimento brasileiro e concluir a operação a partir de suas contas domésticas. A expectativa é que, posteriormente, a interoperabilidade seja ampliada para outras carteiras digitais integrantes da rede global da UnionPay.
A operação tem uma diferença importante em relação ao uso tradicional de cartões internacionais: o consumidor chinês poderá utilizar um aplicativo ao qual já está acostumado e pagar diretamente em estabelecimentos que trabalham com Pix. Para o comerciante brasileiro, a transação passa pela infraestrutura nacional de pagamentos, enquanto a conversão e a liquidação internacional ficam vinculadas à estrutura financeira envolvida na operação.
A dimensão estratégica do projeto aparece no momento em que o Pix está no centro de uma disputa comercial entre Brasília e Washington. Os Estados Unidos questionaram aspectos da política brasileira relacionada ao sistema de pagamentos, enquanto o governo brasileiro defende o Pix como infraestrutura pública criada pelo Banco Central e rejeita a acusação de que o sistema tenha sido desenhado para prejudicar empresas estrangeiras de pagamentos.
O projeto chinês, entretanto, não significa que o Pix esteja sendo incorporado ao sistema financeiro chinês ou que o yuan passe a circular diretamente na economia brasileira. Trata-se, segundo as informações divulgadas, de uma conexão entre sistemas de pagamento que permitirá ao usuário chinês pagar uma compra no Brasil utilizando sua conta e seu aplicativo de origem. A diferença é relevante porque envolve interoperabilidade tecnológica e financeira, e não a substituição do real como moeda oficial.
A UnionPay já possui presença no mercado brasileiro. A própria companhia informa que seus cartões são aceitos em cerca de 70% dos estabelecimentos locais. A nova etapa pretende avançar além da utilização convencional de cartões e aproximar os aplicativos chineses da infraestrutura de pagamentos instantâneos brasileira.
O interesse também está relacionado ao crescimento do fluxo de chineses para o Brasil. Dados citados na divulgação do projeto apontam que o país recebeu mais de 100 mil turistas chineses em 2025, enquanto as chegadas cresceram novamente no primeiro trimestre de 2026. No primeiro semestre deste ano, as transações realizadas em terminais brasileiros com cartões UnionPay emitidos na China também teriam registrado crescimento superior a 30%.
A aproximação financeira entre os dois países não começou agora. Em maio de 2025, os bancos centrais do Brasil e da China assinaram um memorando de cooperação envolvendo infraestrutura financeira, condições de investimento, moedas locais e sistemas de pagamento. O acordo também renovou o mecanismo de swap cambial entre os dois países.
Há, porém, um ponto que merece acompanhamento. Até o momento, não foi divulgada uma data oficial para o início da operação nem identificado publicamente o parceiro brasileiro responsável pela conexão. Segundo o South China Morning Post, os bancos centrais brasileiro e chinês ainda não haviam feito manifestação pública sobre o projeto.
O avanço da UnionPay também coloca o Pix em uma disputa mais ampla pela interoperabilidade dos sistemas de pagamentos. O Banco Central brasileiro vem trabalhando na expansão internacional da tecnologia e mantém regras específicas para o funcionamento do Pix no país.
Para o Brasil, a conexão representa uma oportunidade de ampliar o alcance de uma infraestrutura desenvolvida internamente. Para a China, abre uma porta para que seus aplicativos financeiros sejam utilizados por consumidores em um dos maiores mercados da América Latina. Para comerciantes brasileiros, especialmente aqueles ligados ao turismo, a possibilidade pode reduzir barreiras de pagamento para visitantes chineses.
O aspecto geopolítico, contudo, não pode ser ignorado. A aproximação acontece justamente depois de Washington colocar o Pix no centro de sua investigação comercial contra o Brasil. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos questionam o modelo brasileiro, uma das maiores redes de pagamentos da China trabalha para se conectar à infraestrutura criada pelo Banco Central.
O resultado é uma mudança que vai além do turismo. Se o projeto-piloto for ampliado, Brasil e China poderão criar uma das pontes mais relevantes entre sistemas de pagamentos instantâneos de economias emergentes. O ponto decisivo será saber se a iniciativa ficará restrita aos turistas chineses ou se evoluirá para uma infraestrutura mais ampla de pagamentos bilaterais, comércio eletrônico e operações entre empresas.
A expansão, portanto, transforma o Pix em mais do que uma ferramenta utilizada diariamente pelos brasileiros. O sistema começa a ser disputado também como infraestrutura internacional de pagamentos — justamente em um momento de crescente competição entre Estados Unidos e China pela influência sobre tecnologias financeiras.



