Nadia Beller mulher que levou 5 tiros a mando do marido denuncia cerco digital e suposta proteção estatal após atentado na Bolívia

Destaque

Ex-companheira de Fernando Cerimedo, que está detido sob suspeita de participação intelectual no ataque, afirma que redes de desinformação e setores do Estado estariam sendo usados para intimidá-la; advogada também levanta suspeitas sobre o marido ser agente da CIA

<OUÇA A REPORTAGEM>

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp

A advogada e ativista política boliviana Nadia Beller rompeu o silêncio nesta quinta-feira (21), diretamente do hospital onde permanece internada após ser baleada em Santa Cruz de la Sierra, e fez novas acusações contra o consultor político argentino Fernando Cerimedo, atualmente detido na Bolívia sob suspeita de participação intelectual no atentado. Beller afirma que, além de ter sobrevivido ao ataque, passou a ser alvo de uma ofensiva digital que teria como objetivo desacreditá-la e impedir que revele informações que diz conhecer sobre a atuação política e empresarial de seu ex-companheiro.

O atentado aconteceu na noite de segunda-feira (17), na entrada de um hotel em Santa Cruz de la Sierra. Imagens de câmeras de segurança divulgadas pela imprensa boliviana mostram dois homens vestidos como entregadores abordando Beller e efetuando disparos. A polícia prendeu Cerimedo no aeroporto de Viru Viru quando ele se preparava para deixar o país. A Justiça boliviana investiga o consultor por suposta tentativa de feminicídio e a possibilidade de participação de outras pessoas no planejamento do ataque.

Sob escolta policial na Clínica de las Américas, Beller rejeitou a versão de que o ataque teria sido um “autoataque”. Segundo ela, as campanhas de difamação que começaram a circular depois do atentado utilizariam métodos semelhantes aos que atribui ao próprio Cerimedo em disputas eleitorais latino-americanas. A advogada afirma que haveria uso coordenado de robôs virtuais, influenciadores e pessoas ligadas à estrutura estatal boliviana.

“Eu sei como funciona a campanha difamatória que ele conduziu em campanhas políticas, usando redes de robôs virtuais e influenciadores pagos”, afirmou Beller em entrevista à emissora argentina C5N. Segundo ela, a estrutura que agora estaria sendo utilizada contra ela teria alcance ainda maior.

A denúncia ganhou uma dimensão adicional quando Beller afirmou ter recebido informações sobre supostos centros de operação de redes automatizadas. Ela mencionou uma operação policial em La Paz e afirmou que existiria uma estrutura maior em Santa Cruz. Essas declarações, entretanto, ainda não foram confirmadas de forma independente pelas autoridades responsáveis pela investigação.

A advogada também levantou suspeitas sobre a atuação de Cerimedo junto ao governo boliviano. Segundo reportagem da agência ERBOL, Beller afirmou que o consultor teria obtido rendimentos por meio da intermediação de contratos, pagamentos e negociações envolvendo grandes empresas, incluindo empresas do setor de petróleo e combustíveis. Ela afirmou que ele não recebia salário formal do governo, mas que teria acesso e utilização de bens públicos. As declarações não constituem, por si só, prova de irregularidades e dependem de investigação documental.

Beller também pediu a participação de observadores internacionais na análise dos aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação. Ela demonstrou desconfiança em relação à perícia conduzida pelas autoridades bolivianas e afirmou temer que informações armazenadas nos celulares possam desaparecer ou ser alteradas.

A advogada sustenta que a investigação precisa ser acompanhada por organismos independentes para evitar interferências. O pedido envolve a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), à qual Beller afirma ter recorrido em busca de garantias de proteção e transparência.

Outro ponto levantado pela vítima envolve a prisão de Cerimedo. Beller afirmou ter recebido informações de que o consultor teria conseguido permanecer dentro de um avião após ser abordado pelas autoridades, oportunidade em que, segundo ela, teria conseguido utilizar o celular para apagar mensagens e realizar ligações. A acusação precisa ser confrontada com os registros da operação policial e com a versão da defesa.

Cerimedo, por sua vez, nega envolvimento no atentado. Segundo informações divulgadas pela imprensa argentina, ele se recusou a prestar declarações em uma audiência realizada em La Paz e permanece sob custódia enquanto a Justiça analisa as medidas cautelares solicitadas pela promotoria.

O caso ganhou repercussão internacional devido às conexões políticas de Cerimedo. O argentino atuou na campanha presidencial de Javier Milei e também passou a trabalhar como consultor do governo do presidente boliviano Rodrigo Paz. A prisão fez com que governos e lideranças políticas da região passassem a ser citados no contexto das denúncias apresentadas por Beller.

A dimensão política do caso, porém, exige cautela. Até agora, as acusações de Beller sobre redes de desinformação, contratos empresariais e eventual utilização da estrutura estatal não foram integralmente comprovadas por documentos públicos. O que existe de concreto é um atentado registrado por câmeras, a prisão de Cerimedo e uma investigação judicial que busca determinar quem ordenou o ataque, quem executou os disparos e qual teria sido a motivação.

O episódio também coloca sob investigação as relações entre comunicação política, consultorias eleitorais, estruturas governamentais e empresas privadas na América Latina. Se as acusações apresentadas pela advogada forem confirmadas por documentos ou perícias, o caso poderá ultrapassar a esfera de um conflito pessoal e alcançar uma rede mais ampla de interesses políticos e empresariais. Até o momento, essa hipótese permanece sob investigação.

- Publicidade-spot_img

Outros Artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade-spot_img

Últimos Artigos