Deputados dos EUA cobram Rubio sobre ajuda do governo Trump à saída de Flávio Bolsonaro do Brasil

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Os parlamentares querem que Rubio esclareça quais autoridades participaram da autorização migratória, se houve comunicação entre órgãos do governo e se a situação judicial de Flávio foi considerada antes da entrada no país. Foto RS/FotosPublicas

Carta assinada por 25 democratas questiona uso de recursos diplomáticos e migratórios; reportagem aponta que assessor da Casa Branca organizou o jato e que Rubio recomendou a entrada da família nos Estados Unidos

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Um grupo de 25 deputados democratas dos Estados Unidos enviou, na noite de quinta-feira (29), uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, pedindo explicações sobre a participação do governo de Donald Trump na viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos. Os parlamentares querem saber se integrantes da administração americana utilizaram recursos diplomáticos e mecanismos de imigração para facilitar a entrada do político brasileiro, que deixou o país depois de ser proibido judicialmente de viajar e intimado a entregar seus passaportes.

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A iniciativa foi divulgada pelo jornal O Globo nesta sexta-feira (30), com base em documento obtido inicialmente pelo site americano Politico. A carta foi encaminhada após reportagens do The New York Times e de outros veículos apontarem que Jason Miller, assessor ligado à comunicação de Donald Trump, teria organizado o avião particular utilizado por Flávio e sua família no trajeto entre a Argentina e os Estados Unidos.

A aeronave partiu da Argentina na noite de terça-feira (27), fez uma escala no Equador para reabastecimento e seguiu para Miami, onde Flávio desembarcou na quarta-feira (28), acompanhado da esposa e das duas filhas.

A carta foi liderada pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada. Entre os signatários estão integrantes da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes. Os parlamentares solicitaram informações sobre a atuação do Departamento de Estado na concessão de vistos, os contatos com outras agências federais e o eventual conhecimento das autoridades americanas sobre as investigações envolvendo o senador no Brasil.

“O povo americano e o Congresso têm um legítimo interesse em compreender se os recursos diplomáticos e de imigração dos EUA foram usados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias”, afirma um trecho da carta, segundo a reportagem.

Os deputados também apontaram que a transparência é necessária diante das consequências diplomáticas do episódio e da existência de um processo judicial em andamento no Brasil.

Entrada nos EUA envolveu procedimento migratório especial

A participação de autoridades americanas não se limita à organização do voo. Segundo reportagem da agência Reuters publicada nesta sexta-feira, Flávio e seus familiares entraram nos Estados Unidos por meio de humanitarian parole, mecanismo de admissão temporária utilizado em circunstâncias específicas. A agência informou que Marco Rubio recomendou a autorização da entrada da família.

O procedimento não equivale à concessão automática de residência permanente nem representa uma decisão sobre a situação judicial do senador no Brasil.

O governo americano também teria sinalizado a possibilidade de emissão de vistos e de uma eventual solicitação de residência permanente por Flávio. A possibilidade de tramitação acelerada de um pedido de green card, porém, ainda não significa que o benefício tenha sido concedido.

A participação de Jason Miller na logística do voo foi atribuída inicialmente ao The New York Times. Segundo o jornal, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do senador, manteve contato com o assessor de Trump depois que Flávio foi intimado a entregar os documentos de viagem.

Miller não apresentou publicamente uma explicação detalhada sobre sua atuação. A reportagem da Folha de S.Paulo também apontou que ainda não está esclarecido se ele agiu em caráter pessoal ou no exercício de suas funções ligadas ao governo americano, nem quem custeou o fretamento da aeronave.

PF investiga saída sem registro migratório

No Brasil, a Polícia Federal investiga as circunstâncias da saída de Flávio Bolsonaro. A corporação informou que, em 25 de outubro, solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) medidas cautelares contra o senador, incluindo a apreensão dos passaportes, a proibição de deixar o país e a restrição de contato com outros investigados.

A medida foi adotada após a PF identificar risco de saída do território nacional. A decisão judicial foi comunicada ao senador na manhã de segunda-feira (26), quando ele foi intimado a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo de 24 horas. Segundo a corporação, a determinação não foi cumprida.

Os passaportes brasileiros comum e diplomático foram cancelados, e um alerta migratório foi inserido no sistema de controle de fronteiras. A PF informou que não encontrou registro oficial de saída do senador pelos postos de controle migratório brasileiros.

A corporação apura como Flávio chegou à Argentina e quais pessoas participaram da logística da viagem. A investigação também busca esclarecer se houve apoio financeiro ou operacional de aliados e empresários. Até o momento, essas hipóteses não representam conclusões sobre a participação de terceiros.

A PF ressalvou que o descumprimento da determinação judicial, por si só, não caracteriza formalmente a condição de foragido nem autoriza automaticamente a prisão do investigado.

Relação entre Trump e a família Bolsonaro

A viagem ocorreu em meio à aproximação política entre integrantes da família Bolsonaro e aliados do presidente americano. Jason Miller mantém relações com o grupo desde o período em que esteve à frente da rede social conservadora Gettr. Durante a campanha brasileira, publicou manifestações de apoio a Flávio Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, também mantém interlocução com integrantes do círculo político de Trump. A reportagem da Folha informou que Miller já havia sido interrogado pela Polícia Federal em 2021, quando esteve no Brasil para participar de um evento organizado por Eduardo.

O episódio ganhou dimensão diplomática porque envolve a atuação de um funcionário ligado à Casa Branca, a recomendação atribuída ao secretário de Estado e a entrada nos Estados Unidos de um senador brasileiro submetido a restrições judiciais no próprio país.

Trump questiona eleição brasileira

A controvérsia também ocorre após declarações de Donald Trump sobre a eleição presidencial brasileira. O presidente americano criticou o processo eleitoral, classificando-o como uma “desgraça”, mas afirmou que não havia apoiado formalmente nenhum dos candidatos.

Em entrevista a jornalistas, Trump disse que pretende conversar com Lula, mas voltou a questionar a votação sem apresentar provas de fraude. A declaração foi registrada em transcrição publicada pelo Roll Call.

Lula foi reeleito em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral.

A carta dos 25 deputados democratas abre uma frente de cobrança dentro do próprio Congresso americano. Os parlamentares querem que Rubio esclareça quais autoridades participaram da autorização migratória, se houve comunicação entre órgãos do governo e se a situação judicial de Flávio foi considerada antes da entrada no país.

Até a publicação da reportagem, não havia resposta pública do Departamento de Estado aos questionamentos apresentados pelos deputados.

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