Onda democrata toma o Congresso dos EUA e impõe derrota histórica a Trump

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Para os democratas, a vitória oferece uma oportunidade de reconstruir sua força nacional e apresentar resultados legislativos que possam sustentar uma candidatura competitiva à Presidência. Foto Ali Shaker/VOA/Wikimedia Commons

Oposição conquista maioria no Senado e na Câmara, vence em estados tradicionalmente republicanos e ganha poder para investigar o governo. Resultado das eleições de meio de mandato expõe desgaste político do presidente e muda o equilíbrio de forças em Washington

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O Partido Democrata conquistou o controle das duas Casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições legislativas realizadas na terça-feira (3), impondo uma derrota histórica ao presidente Donald Trump, do Partido Republicano. A vitória, confirmada na madrugada desta quarta-feira (4), representa uma forte reação do eleitorado às políticas da Casa Branca e altera o equilíbrio de poder em Washington para os próximos dois anos.

Os democratas avançaram sobre estados tradicionalmente republicanos, conquistaram pelo menos sete cadeiras no Senado e ampliaram sua representação na Câmara dos Representantes. Entre as vitórias mais expressivas estão disputas no Texas, Carolina do Sul, Kansas, Iowa, Ohio, Maine e Carolina do Norte. O resultado surpreendeu pela dimensão e atingiu diretamente candidatos apoiados por Trump, que participou pessoalmente da campanha para tentar preservar a maioria republicana.

A derrota é especialmente significativa porque Trump perde o controle legislativo que permitia aos republicanos conduzir com maior facilidade a agenda presidencial. A partir de janeiro de 2027, quando os novos parlamentares assumirem seus mandatos, o presidente terá de negociar com uma oposição que controlará as principais comissões e a pauta das duas Casas.

DEM0CRATAS AVANÇAM EM ESTADOS CONSERVADORES

Uma das vitórias mais simbólicas ocorreu no Texas, onde o democrata James Talarico derrotou Ken Paxton, candidato republicano apoiado por Trump. O resultado encerra uma sequência de décadas de derrotas democratas em disputas estaduais para o Senado no Texas. A vitória foi acompanhada de perto porque o estado é considerado um dos principais redutos republicanos do país.

Na Carolina do Sul, a democrata Annie Andrews derrotou Darline Graham, candidata apoiada pelo presidente. A conquista tem peso histórico: os republicanos perderam uma cadeira em um estado que Trump havia vencido com ampla vantagem na eleição presidencial de 2024.

No Kansas, Adam Hamilton derrotou o republicano Roger Marshall. Foi a primeira vitória democrata para o Senado federal no estado desde 1932, segundo o levantamento da Ballotpedia.

Em Iowa, Josh Turek também conquistou uma cadeira para os democratas ao derrotar Ashley Hinson. No Maine, Troy Jackson venceu a tradicional senadora republicana Susan Collins.

Na Carolina do Norte, Roy Cooper derrotou Michael Whatley e recuperou uma cadeira para os democratas. Em Ohio, Sherrod Brown venceu Jon Husted, retomando uma vaga que estava nas mãos dos republicanos.

As vitórias demonstram que o avanço democrata não ficou restrito aos estados onde o partido tradicionalmente tem maior força eleitoral. A oposição conseguiu atrair eleitores em regiões que haviam apoiado Trump dois anos antes.

CUSTO DE VIDA E GUERRA COM O IRÃ PESARAM NA DERROTA REPUBLICANA

A insatisfação econômica aparece entre os principais fatores que ajudam a explicar a mudança no comportamento do eleitorado.

Segundo a Reuters, pesquisas de boca de urna indicaram que quase nove em cada dez eleitores consideravam o custo de vida um fator importante na decisão de voto. Preços de alimentos, combustíveis e despesas cotidianas estiveram entre as principais preocupações.

A guerra envolvendo o Irã também teve impacto político. A participação dos Estados Unidos no conflito provocou críticas e ampliou o desgaste do governo, inclusive entre setores conservadores que apoiaram Trump com a expectativa de que ele priorizasse uma política externa menos intervencionista.

A insatisfação alcançou diferentes grupos sociais, incluindo eleitores independentes, jovens e parte do eleitorado latino, que havia contribuído para a vitória republicana em 2024.

O resultado também expõe dificuldades do Partido Republicano para manter a coalizão eleitoral que levou Trump novamente à Casa Branca.

TRUMP PERDE CANDIDATOS QUE APOIOU E MUDA O DISCURSO

O presidente transformou as eleições legislativas em um teste de sua liderança política e fez campanha por candidatos republicanos em diferentes estados.

A derrota de nomes apoiados diretamente por Trump representa também um revés para sua capacidade de influenciar as disputas internas do partido.

Depois da divulgação dos resultados, o republicano adotou um discurso de disposição para negociar com a oposição. Em entrevista ao jornal The New York Times, afirmou que pretende trabalhar com os democratas e buscar entendimentos.

“Vamos trabalhar com os democratas e esperamos colaborar com eles. Provavelmente chegaremos a algum entendimento”, declarou.

Antes da votação, entretanto, Trump havia sinalizado que poderia utilizar o poder presidencial de veto para bloquear propostas da oposição.

Em entrevista ao podcast Pod Force One, do New York Post, afirmou que poderia se transformar no “Sr. Veto”, em referência à possibilidade de barrar projetos aprovados pelo Congresso.

A estratégia revela o tamanho do desafio que o presidente terá pela frente. Mesmo mantendo o poder de veto, Trump precisará negociar com uma maioria parlamentar que poderá dificultar a aprovação de suas prioridades.

OPOSIÇÃO GANHA PODER PARA INVESTIGAR O GOVERNO

A conquista das duas Casas não representa apenas uma mudança na votação de projetos. Os democratas passam a controlar instrumentos importantes de fiscalização do Executivo.

Na Câmara dos Representantes, a maioria poderá comandar as principais comissões, convocar autoridades, requisitar documentos e abrir investigações sobre decisões administrativas, contratos, políticas públicas e eventuais conflitos de interesse envolvendo integrantes do governo.

No Senado, os democratas terão influência sobre a análise de indicações presidenciais para cargos importantes e poderão bloquear nomeações que dependam de aprovação parlamentar.

A nova maioria também poderá dificultar a aprovação do orçamento e de projetos considerados prioritários pela Casa Branca.

Integrantes democratas já sinalizaram que pretendem intensificar a fiscalização da administração Trump. A possibilidade de investigações sobre decisões presidenciais, relações empresariais e interesses financeiros do entorno do presidente deverá ganhar espaço na agenda legislativa.

O impeachment também poderá voltar ao debate político, embora a abertura de um processo não signifique automaticamente o afastamento do presidente. Para a condenação no Senado são necessários dois terços dos votos dos senadores presentes.

RESULTADOS TAMBÉM PRODUZEM VITÓRIAS HISTÓRICAS

Além da mudança no controle do Congresso, as eleições registraram conquistas inéditas para diferentes grupos políticos e sociais.

Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms foi eleita a primeira mulher negra a governar um estado americano. No Texas, Gina Hinojosa conquistou uma vitória histórica como primeira mulher latina eleita governadora do estado.

Na Flórida, Byron Donalds venceu a disputa para governador e se tornou o primeiro republicano negro eleito para comandar um estado americano.

No Senado, Abdul El-Sayed foi eleito e se tornou o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira na Casa. Peggy Flanagan também conquistou um marco histórico ao se tornar a primeira mulher indígena eleita senadora.

Os resultados mostram que a onda democrata alcançou não apenas as disputas legislativas, mas também eleições estaduais e outras instâncias do poder político.

COMO FUNCIONAM AS MIDTERMS

As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, ocorrem a cada dois anos, sempre na metade do mandato presidencial. Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos renovam parcialmente o Congresso a cada ciclo eleitoral.

A Câmara dos Representantes possui 435 cadeiras, todas disputadas a cada dois anos. Para obter maioria absoluta, um partido precisa conquistar pelo menos 218 assentos.

No Senado, os mandatos são de seis anos e aproximadamente um terço das 100 cadeiras é renovado a cada eleição. Em 2026, 35 vagas estavam em disputa.

As eleições costumam funcionar como uma avaliação do governo em exercício. Historicamente, o partido do presidente enfrenta dificuldades nas midterms, especialmente quando há desgaste econômico, insatisfação popular ou crises políticas.

DERROTA PODE REDESENHAR A DISPUTA PRESIDENCIAL DE 2028

A derrota republicana também antecipa uma disputa interna sobre o futuro do partido e a sucessão presidencial de 2028.

Trump não poderá concorrer a um terceiro mandato, conforme a Constituição americana. Com a perda do controle do Congresso, lideranças republicanas terão de avaliar o desgaste da atual administração e buscar alternativas para manter a influência política do partido.

Para os democratas, a vitória oferece uma oportunidade de reconstruir sua força nacional e apresentar resultados legislativos que possam sustentar uma candidatura competitiva à Presidência.

Entretanto, controlar o Congresso também representa uma responsabilidade. A população que rejeitou o governo republicano cobrará respostas para os problemas econômicos e sociais que influenciaram a votação.

A partir de janeiro de 2027, Washington terá um presidente republicano diante de um Congresso de maioria democrata. A disputa promete marcar os dois últimos anos do governo Trump, com possíveis investigações, bloqueios legislativos e negociações sobre os rumos da maior economia do mundo.

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