
Em entrevista ao Fantástico, deputado da Rede-MG afirma que canal digital “Exército do Lula” chegou a reunir mais de 10 milhões de participantes antes do segundo turno e defende mudanças no modelo de mobilização política nas redes sociais
O deputado federal André Janones (Rede-MG), reeleito para o terceiro mandato, afirmou que não aceitará convite para ocupar um ministério no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, o parlamentar declarou que pretende permanecer na Câmara dos Deputados, depois de liderar uma das principais estratégias de mobilização digital da campanha presidencial de 2026.
“Eu não vou aceitar nenhum ministério. Está cravado. Não vou ser ministro do governo Lula. Vou continuar na Câmara dos Deputados representando o povo”, afirmou Janones.
O parlamentar ganhou projeção nacional durante a campanha com o canal de mensagens denominado “Exército do Lula”, que, segundo ele, ultrapassou 10 milhões de participantes nas três semanas que antecederam o segundo turno. A ferramenta foi utilizada para distribuir conteúdos, orientações e mobilizações em defesa da candidatura petista.
Janones administrava diretamente o canal pelo celular e reconheceu que o modelo concentrava decisões em sua própria figura. Após a eleição, afirmou que pretende discutir uma nova estrutura para a comunicação com os apoiadores do presidente.
“É um modelo transitório, necessário para a gente vencer uma eleição, necessário para a gente poder dar governabilidade ao presidente a partir de agora. Mas é um modelo que deve servir como transição”, declarou.
O deputado também disse que a estrutura não corresponde à democracia que pretende defender no futuro, na qual os usuários tenham liberdade para publicar conteúdos em suas próprias redes.
Canal e mobilização digital
Ao comentar a redução no número de participantes depois da eleição, Janones afirmou acreditar que parte dos integrantes não era formada por apoiadores de Lula.
“Eu acho que vai cair até mais, porque, agora, muitos do lado de lá começaram a sair. Deve ter 1 milhão de infiltrados. E 9 milhões são do nosso campo”, avaliou.
O parlamentar afirmou que o canal pertence politicamente ao presidente e que já conversou com Lula sobre a continuidade da iniciativa.
“Eu disse, olhando nos olhos dele: ‘O canal é do senhor, o Exército é do Lula, tudo foi construído com o nome do senhor’”, relatou.
A atuação do canal também entrou no debate sobre a regulamentação das plataformas digitais e a igualdade de condições entre candidaturas. Durante a campanha, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cobrou das empresas responsáveis pelas redes sociais medidas para assegurar tratamento equilibrado às campanhas. Meta, Google e X informaram ao tribunal que não haviam identificado irregularidades no canal de apoiadores de Lula.
Encontro com Lula no Alvorada
Depois da eleição, Janones recebeu uma ligação de Lula, que o convidou para uma transmissão ao vivo e um almoço em Brasília. O encontro ocorreu no Palácio da Alvorada e contou também com a presença da primeira-dama Janja.
Segundo o deputado, a conversa durou aproximadamente três horas. A reunião ocorreu em meio às articulações políticas para o novo período de governo.
Janones também comentou sua relação com o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho (Republicanos), que apoiou Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
“Ele é um amigo, um amigo mesmo”, afirmou. O deputado disse acreditar que o governador eleito poderá contribuir para reduzir a polarização política no estado.
Polêmicas e processos
A entrevista também abordou episódios que marcaram a trajetória política de Janones, incluindo uma medida protetiva solicitada por uma ex-companheira, com fundamento na Lei Maria da Penha, e uma investigação sobre suspeita de prática de rachadinha.
Sobre a medida protetiva, o parlamentar afirmou que não poderia comentar os detalhes porque o caso tramita em segredo de Justiça. Disse ainda que não foi condenado e declarou que “a verdade prevalecerá”.
Em relação à investigação sobre rachadinha, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou suspeitas envolvendo a utilização de recursos de um assessor para o pagamento de despesas pessoais do deputado entre 2019 e 2020. Janones negou ter se apropriado de salários de funcionários.
O caso foi encerrado por meio de acordo, sem condenação criminal, com devolução de R$ 131.511, conforme relatado na entrevista.
O deputado também comentou a suspensão de seu mandato por três meses, decorrente de episódios de confronto com parlamentares na Câmara. Disse não se arrepender de sua conduta e atribuiu a decisão a disputas políticas.
Outro assunto abordado foi a divulgação de um vídeo sobre possíveis mudanças em programas sociais caso Flávio Bolsonaro fosse eleito. O conteúdo foi contestado judicialmente pelo adversário de Lula, que pediu sua retirada do ar. Janones defendeu a publicação e negou ter divulgado informação falsa. “Eu não estou mentindo, simples assim”, afirmou.
A entrevista evidencia que, apesar de descartar um cargo no Executivo, Janones pretende manter participação na articulação política do governo Lula, especialmente na comunicação digital e na mobilização de apoiadores.
Repercussão internacional
A estratégia digital liderada por André Janones ganhou repercussão na imprensa estrangeira após a vitória de Lula. O deputado relatou ter concedido entrevistas a veículos como o francês Le Monde e o britânico The Guardian, além de receber convites de jornalistas da Alemanha, França, Itália, Espanha, Colômbia e México. “A repercussão internacional é a única coisa que não estava no meu radar”, afirmou. A rotina de entrevistas e deslocamentos intensos, segundo Janones, chegou a comprometer sua voz, obrigando-o a interromper temporariamente alguns compromissos.


