Michelle se reconcilia com Flávio, mas mantém divergência sobre vice Alfredo Gaspar e expõe novas fissuras no grupo Bolsonaro

Destaque

Ex-primeira-dama grava propaganda eleitoral com Flávio Bolsonaro em Brasília, diz que os dois colocaram “uma pedra” na crise, mas admite que gostaria de ter visto uma mulher como vice na chapa presidencial

<OUÇA A REPORTAGEM>

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) se reuniu nesta terça-feira (11), em Brasília, com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, para gravar peças de propaganda eleitoral. O encontro marcou a primeira aparição presencial dos dois desde o agravamento da crise familiar e política que veio a público no fim de junho. A reaproximação ocorre justamente quando Flávio tenta consolidar sua candidatura nacional e organizar sua estrutura para a disputa de 2026.

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp

Michelle afirmou que ela e Flávio decidiram superar o episódio e retomar a cooperação política. “Colocamos uma pedra” sobre o problema, disse a ex-primeira-dama. Questionada sobre como foi o reencontro, resumiu: “Foi normal. É meu enteado há 19 anos, nos abraçamos”. Segundo ela, a decisão de apoiar a candidatura de Flávio está relacionada à necessidade de união do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

A reconciliação, entretanto, não eliminou todas as divergências. Ao ser questionada sobre Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, Michelle evitou detalhar os conflitos e afirmou que prefere não ampliar a divisão dentro da família. “Eu não vou polarizar. Um dia de cada vez”, declarou. Ela também disse não guardar mágoa dos integrantes do grupo político e afirmou que os problemas familiares estão sendo tratados gradualmente.

A divergência sobre o vice

Um dos pontos políticos mais sensíveis do reencontro foi a escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) para ocupar a vice na chapa de Flávio. Michelle deixou claro que sua preferência era outra. Questionada sobre a composição, afirmou que “gostaria que tivesse sido uma mulher”, embora tenha declarado apoio à decisão tomada pelo candidato.

A declaração revela que a reconciliação entre Michelle e Flávio não significa necessariamente concordância sobre todas as decisões da campanha. A escolha de Gaspar foi feita depois de Flávio ter defendido durante meses a possibilidade de uma mulher como vice. O senador posteriormente explicou que dificuldades de articulação partidária e a existência de candidaturas femininas já estruturadas dentro do PL contribuíram para a mudança de estratégia.

Michelle, porém, afirmou que respeita a escolha e que espera que o candidato a vice dê atenção às pautas das mulheres. A posição é politicamente relevante porque a ex-primeira-dama tenta manter influência sobre segmentos femininos e evangélicos do eleitorado bolsonarista enquanto disputa uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal.

A composição da chapa também acontece em meio a uma disputa maior pelo controle político do campo conservador para 2026. Flávio precisa conciliar interesses do PL, alianças regionais, lideranças estaduais e a influência da própria família Bolsonaro. A escolha de Gaspar, portanto, não representa apenas uma decisão eleitoral: também sinaliza quais grupos políticos ganharam espaço na montagem da candidatura presidencial.

Racha familiar ainda deixa marcas

A crise entre Michelle e Flávio havia exposto divergências que ultrapassavam questões pessoais. Um dos episódios citados no histórico do conflito envolve a articulação do PL no Ceará e a aproximação com Ciro Gomes, situação que desagradou Michelle e contribuiu para o desgaste entre os dois. A ex-primeira-dama já havia tornado públicas críticas à forma como foi tratada durante o episódio.

Agora, a estratégia adotada é de redução pública do conflito. Michelle decidiu aparecer ao lado de Flávio na propaganda e reafirmar apoio à candidatura presidencial, enquanto evita novos ataques aos integrantes da família. Para a campanha, a imagem de união tem valor eleitoral, especialmente porque o nome de Michelle possui capital político próprio e pode ajudar a aproximar Flávio de segmentos do eleitorado nos quais a ex-primeira-dama mantém influência.

O movimento também interessa ao PL. A divisão pública entre integrantes da família Bolsonaro poderia dificultar a formação de uma estrutura nacional para a candidatura presidencial. A tentativa de reconstrução da unidade ocorre, portanto, em um momento em que Flávio busca transformar a força eleitoral herdada do pai em uma candidatura presidencial competitiva.

Michelle terá atuação limitada na campanha

Apesar do apoio, Michelle avisou que não deverá acompanhar Flávio em uma campanha nacional com a mesma intensidade de outros aliados. Segundo ela, sua prioridade é permanecer próxima de Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar e enfrenta problemas de saúde. A ex-primeira-dama afirmou que, por essa razão, terá dificuldades para viajar pelo país.

Como alternativa, Michelle indicou que o PL Mulher poderá ampliar a atuação de lideranças regionais para ajudar na campanha de Flávio. A estratégia permite que ela participe da eleição sem necessariamente abandonar sua própria campanha ao Senado pelo Distrito Federal.

Durante o encontro, Michelle também defendeu a liberdade de Jair Bolsonaro e dos presos pelos atos de 8 de janeiro. O discurso mantém a ligação da campanha de Flávio com uma das principais bandeiras do bolsonarismo.

Flávio reúne candidatos ao Senado

Flávio passou boa parte do dia reunido com aproximadamente 30 candidatos ao Senado apoiados por seu grupo político. O encontro serviu para alinhar discursos e estratégias eleitorais, incluindo críticas à política fiscal do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A reunião também expôs a prioridade dada pela campanha à formação de uma bancada alinhada no Senado. O grupo de Flávio tem defendido, entre outras pautas, o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Durante o encontro, candidatos chegaram a gritar em coro em defesa do afastamento do ministro.

Flávio também atacou Moraes e o classificou como “articulador político” do governo Lula. A declaração reforça uma estratégia eleitoral de transformar o confronto com o STF em uma das principais bandeiras da candidatura.

O que está por trás da reconciliação

A reaproximação entre Michelle e Flávio ocorre em uma conjuntura em que os interesses pessoais e eleitorais da família Bolsonaro estão fortemente entrelaçados. Michelle disputa o Senado pelo Distrito Federal, Flávio tenta chegar ao Palácio do Planalto e Jair Bolsonaro permanece como principal referência política do grupo, apesar de estar impedido de disputar a eleição.

Nesse cenário, uma ruptura pública entre Michelle e Flávio teria potencial para produzir efeitos eleitorais. A decisão de gravar propaganda juntos sinaliza uma tentativa de apresentar ao eleitorado uma imagem de unidade.

Mas a declaração de Michelle sobre a vice mostra que a unidade tem limites. Ela apoiará Flávio, mas deixou registrado que não concordava integralmente com a composição da chapa. A preferência por uma mulher pode ser interpretada também como uma defesa de espaço político próprio para lideranças femininas dentro do bolsonarismo.

O episódio revela, portanto, uma família politicamente reunificada na superfície, mas ainda atravessada por divergências sobre alianças, candidaturas e espaço de poder. Para Flávio, a presença de Michelle na campanha ajuda a reduzir o impacto do racha. Para Michelle, o apoio ao enteado preserva a unidade do grupo sem significar a renúncia às próprias posições políticas.

A campanha presidencial terá de administrar esse equilíbrio nos próximos meses: manter a imagem de uma família unida em torno de Flávio, sem apagar as diferenças que já vieram a público e que continuam influenciando a formação da chapa e das alianças para 2026.

- Publicidade-spot_img

Outros Artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade-spot_img

Últimos Artigos