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Mulher negra, de 84 anos, é resgatada de trabalho escravo doméstico após 72 anos

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A trabalhadora declarou à fiscalização estar preocupada com a empregadora, também idosa, que ficaria sozinha e sem ninguém para cuidar dela. Ela, que não se via como alguém que foi escravizada, chegou a pedir para voltar.

 

 

Uma mulher negra de 84 anos foi resgatada pela Auditoria Fiscal do Trabalho de condições análogas às de escravo após 72 anos trabalhando como empregada doméstica para três gerações de uma mesma família no Rio de Janeiro, revela o colunista Leonardo Sakamoto, do Uol.

A senhora, que está em um abrigo público sob acompanhamento desde a semana passada, trabalhava para a família Mattos Maia desde os 12 anos. Essa é a mais longa duração de exploração de uma pessoa em escravidão contemporânea desde que o Brasil criou o sistema de fiscalização para enfrentar esse crime em maio de 1995, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Previdência. Nos últimos 27 anos, foram mais de 58 mil resgatados pelo poder público.

“Era como um membro da família”, disseram os patrões que foram desmentidos por vizinhos e por uma irmã e uma sobrinha da trabalhadora ouvidos pelos fiscais. Elas confirmaram a relação de emprego e também que os patrões controlavam visitas e telefonemas, dificultando o contato da trabalhadora com o mundo externo.

E o patrão também confirmou a relação de trabalho, mesmo sem querer. Quando os fiscais pediram para falar a sós com a trabalhadora, ele a pegou pelo braço e, de forma, veemente afirmou: “Você não diga que trabalhou para a minha mãe, senão você vai foder com ela”, diz a reportagem.

O auditor fiscal do trabalho Alexandre Lyra, que coordenou a ação, disse ao colunista que os patrões afirmaram que os serviços domésticos não eram trabalho, mas uma colaboração voluntária no âmbito familiar

“Em casos como este ouvimos sempre a afirmação de a vítima é ‘como se fosse da família’. Mas para essa pessoa da família não foi permitido estudo, nem laços de amizade externos ou mesmo conduzir a própria vida. Essa pessoa da família dorme em um sofá, em um espaço improvisado como dormitório em uma antessala do quarto da empregadora, de quem ela era cuidadora”, diz.

A trabalhadora declarou à fiscalização estar preocupada com a empregadora, também idosa, que ficaria sozinha e sem ninguém para cuidar dela. Ela, que não se via como alguém que foi escravizada, chegou a pedir para voltar.

A ação de fiscalização, que contou com a participação do Ministério Público do Trabalho e do Projeto Ação Integrada, que garante atendimento psicossocial, começou em 15 de março e ainda não terminou,  porque continuam as negociações para o pagamento dos salários e direitos atrasados.

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