Clube enfrenta salários atrasados, ações trabalhistas e disputa judicial sobre eleições; proposta de R$ 1 bilhão prevê investimentos no estádio, futebol e pagamento de dívidas
<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp
A Ponte Preta completa 126 anos nesta terça-feira (11) em um dos períodos mais delicados de sua história recente. O clube de Campinas enfrenta dificuldades financeiras, salários atrasados, processos trabalhistas e desempenho abaixo do esperado na Série B do Campeonato Brasileiro, enquanto começa a discutir a transformação em Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
A discussão sobre a SAF está prevista para a Assembleia Geral Extraordinária marcada para 24 de agosto, no Salão Nobre Pedro Pinheiro, no Estádio Moisés Lucarelli. A proposta apresentada por um grupo interessado, cuja identidade ainda não foi divulgada, prevê uma operação estimada em R$ 1 bilhão.
Do valor projetado, R$ 400 milhões seriam destinados à modernização do Moisés Lucarelli, com a transformação do estádio em uma arena multiuso com capacidade prevista para 21 mil pessoas. Outros R$ 300 milhões seriam aplicados no futebol profissional e nas categorias de base ao longo de dez anos. Os R$ 300 milhões restantes seriam destinados ao pagamento das dívidas acumuladas pelo clube.
A proposta surge depois de a Ponte conquistar, de forma inédita, o Campeonato Brasileiro da Série C. O título, porém, não foi acompanhado por uma solução para os problemas financeiros. Segundo as informações apresentadas pelo clube e reportadas sobre a situação, os atrasos salariais continuaram e a crise contribuiu para a saída de jogadores e para a queda de rendimento esportivo.
Na semana passada, o departamento financeiro também sofreu uma mudança. Hamilton Caviolla Filho deixou o cargo de diretor financeiro, função que ocupava desde fevereiro de 2024. Segundo as informações divulgadas, a saída ocorreu por razões particulares.
Disputa judicial coloca eleições sob análise
Além da crise financeira e do debate sobre a SAF, a Ponte Preta enfrenta uma disputa judicial envolvendo o cadastro de associados. Por determinação da Justiça, o sistema utilizado pelo clube deverá ser disponibilizado para perícia judicial. O objetivo é verificar se houve eventual intervenção irregular no banco de dados capaz de afetar a condição de associados, o direito de voto ou a formação dos órgãos internos.
A perícia poderá atingir as duas últimas eleições presidenciais da associação, realizadas em 2021 e 2025. Marco Antonio Eberlin venceu o pleito de 2021, enquanto Luiz Torrano venceu a eleição de 2025.
A investigação judicial, entretanto, não significa que as eleições tenham sido anuladas ou consideradas fraudulentas. A perícia deverá verificar se houve irregularidades no sistema de cadastro e se eventual problema teve capacidade de interferir nos processos eleitorais. Somente a constatação de irregularidades com impacto sobre os pleitos poderá provocar novos questionamentos judiciais.
A Ponte Preta nega irregularidades. Em manifestação assinada pelo advogado Walter Eberlin Neto, o clube afirmou que mantém contato, desde maio, com a empresa responsável pelo sistema para fornecer as informações solicitadas pela Justiça. A diretoria também sustenta que o processo teria componentes de natureza política e não estaria restrito à discussão sobre a validade das eleições.
A Justiça, por outro lado, rejeitou o pedido de ex-conselheiros que pretendiam impedir a convocação de assembleias gerais extraordinárias destinadas a discutir mudanças consideradas estruturais para o clube, incluindo alterações estatutárias, reorganização administrativa, eventual alienação de patrimônio e a criação da SAF.
Na avaliação da magistrada, uma proibição prévia das assembleias representaria interferência na autonomia da associação e poderia restringir o direito dos próprios associados de deliberar sobre o futuro da Ponte.
SAF coloca patrimônio e futuro do clube no centro do debate
A discussão sobre a Sociedade Anônima do Futebol ocorre, portanto, em meio a duas questões que se cruzam: a necessidade de capital para enfrentar o passivo e a preservação do patrimônio e da identidade histórica da Ponte Preta.
O projeto de R$ 1 bilhão, se confirmado nos termos apresentados, representa uma mudança de escala para o clube. A previsão de R$ 400 milhões para o Moisés Lucarelli transformaria o estádio construído com participação histórica da torcida em uma arena multiuso, enquanto outros R$ 300 milhões seriam destinados diretamente à estrutura do futebol e das categorias de base.
O ponto que deverá concentrar a atenção dos associados na assembleia é justamente a contrapartida dessa operação: quais direitos o investidor receberá, qual será o modelo de controle da SAF, como serão tratados os ativos e passivos da associação e quais garantias existirão para o cumprimento dos investimentos prometidos.
Outro aspecto a ser esclarecido é a identidade do grupo interessado. Sem a divulgação pública do investidor, ainda não é possível avaliar sua capacidade financeira, seus interesses no projeto, sua experiência na gestão esportiva ou eventual relação com outros negócios envolvendo o patrimônio do clube.
A transformação em SAF também não elimina automaticamente as dívidas existentes. O modelo precisa estabelecer como o passivo será administrado, quais obrigações permanecerão na associação, quais serão transferidas para a estrutura empresarial e quais garantias serão oferecidas aos credores.
A Ponte Preta chega aos 126 anos, portanto, diante de uma decisão que pode definir sua próxima década. A SAF pode representar uma fonte de capital para reorganizar as finanças e modernizar o estádio, mas a operação dependerá das condições efetivamente apresentadas aos associados e das garantias previstas no contrato.
A assembleia de 24 de agosto deverá colocar no centro da discussão não apenas a necessidade de dinheiro para o futebol, mas também quem controlará os rumos da Ponte, como será tratado seu patrimônio e quais mecanismos serão utilizados para proteger os interesses do clube e de seus associados.



