Participação do senador em audiência do governo norte-americano gerou reações negativas de representantes do setor produtivo, do governo federal e de aliados políticos
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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi alvo de críticas após participar de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em Washington, que debate a possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Durante o evento, representantes do setor privado, integrantes do governo federal e até aliados do parlamentar questionaram a condução de sua participação e a postura adotada durante as discussões.
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RELAÇÕES INTERNACIONAIS
O economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gustavo Pessoa, que acompanhou a audiência, afirmou que o discurso de Flávio Bolsonaro destoou do perfil técnico predominante nas sessões. Segundo ele, o pronunciamento teve forte conteúdo político e teria provocado desconforto entre os organizadores do encontro.
De acordo com o economista, assessores do senador foram advertidos pela mesa diretora ao tentarem gravar vídeos e produzir imagens durante a apresentação. Pessoa também afirmou que Flávio Bolsonaro chegou ao local após o início previsto da audiência, acompanhado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e assessores.
Ainda segundo o professor, a apresentação do senador não trouxe dados técnicos ou argumentos econômicos detalhados para sustentar sua posição sobre a política tarifária norte-americana, concentrando-se em questões de natureza política.
As críticas também vieram de integrantes do próprio campo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O jornalista Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro, afirmou que a estratégia de comunicação da equipe de Flávio foi ineficiente. Em publicação nas redes sociais, criticou a ausência de entrevistas, da divulgação da íntegra do discurso e da repercussão do conteúdo apresentado durante a audiência. Ele também afirmou que o texto distribuído à imprensa teria sido produzido por inteligência artificial.
Em nota divulgada na terça-feira (7), a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) criticou a participação do senador no evento. O governo federal afirmou que, entre os brasileiros inscritos para a audiência, Flávio Bolsonaro foi o único que não se posicionou de forma contrária à adoção de novas tarifas contra produtos brasileiros. A nota também sustentou que a atuação do parlamentar contribuiu para legitimar argumentos apresentados pelas autoridades norte-americanas durante a investigação comercial.
A manifestação oficial classificou a postura do senador como contrária aos interesses nacionais e afirmou que a participação ocorreu enquanto representantes dos ministérios do Desenvolvimento, das Relações Exteriores, da Justiça e do Palácio do Planalto negociavam diretamente com técnicos do USTR para tentar impedir a aplicação das tarifas.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, também comentou o episódio. Segundo ele, as negociações conduzidas pelo governo brasileiro devem permanecer restritas às questões comerciais, sem interferência de disputas políticas ou eleitorais. “Não há espaço para discussão de natureza política, eleitoral, egoística, ou qualquer outro interesse que não seja o interesse do Brasil, a defesa da soberania e a defesa dos reais interesses do Brasil”, afirmou.
Outro ponto de divergência envolve o etanol. Em documento encaminhado ao USTR, Flávio Bolsonaro defendeu a redução das tarifas brasileiras incidentes sobre o etanol produzido nos Estados Unidos. O governo brasileiro, por outro lado, considera que uma eventual flexibilização poderá prejudicar a cadeia sucroenergética nacional. A posição oficial é compartilhada por entidades como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que defenderam durante a audiência a manutenção da política atual e a ampliação da cooperação internacional no mercado de biocombustíveis.
Nota de Flávio Bolsonaro
Até a publicação desta reportagem, o senador Flávio Bolsonaro não havia divulgado manifestação respondendo às críticas feitas pelo economista Gustavo Pessoa, pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República ou pelo ministro Márcio Elias Rosa. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento do parlamentar.




