Advogado bolsonarista afirma que Delta Force estaria no Brasil, mas não apresenta provas

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Não há confirmação oficial de operação militar norte-americana em território brasileiro, sendo que o Brasil mantém relações comercias com China e Rússia e uma possível intervenção seria imediatamente repudiada internacionalmente

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O advogado Jeffrey Chiquini, que defende Filipe Martins, ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmou em vídeo publicado nas redes sociais que integrantes da Delta Force, unidade de operações especiais do Exército dos Estados Unidos, já estariam em território brasileiro. Chiquini, porém, não apresentou documentos, imagens, nomes de agentes, registros oficiais ou qualquer outra evidência verificável para sustentar a afirmação.

A declaração foi feita em meio à escalada das tensões entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump e ocorreu depois de uma publicação do deputado norte-americano Carlos Gimenez, aliado do presidente dos Estados Unidos. Gimenez divulgou uma montagem na qual o rosto de Lula aparece sobre uma fotografia relacionada à captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro. Na legenda, escreveu: “O que o espera… #Brasil”.

Chiquini afirmou que a postagem teria reforçado uma informação que, segundo ele, havia recebido anteriormente. “Ontem eu recebi uma informação quentíssima que forças Delta já estão em território brasileiro com inteligência americana”, declarou.

Não há, entretanto, confirmação pública do governo brasileiro, das Forças Armadas, da Polícia Federal ou de autoridades norte-americanas de que integrantes da Delta Force estejam realizando uma operação no Brasil.

O que existe de concreto

Parte da argumentação apresentada pelo advogado se apoia em um fato real: em maio, o governo dos Estados Unidos anunciou a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida entrou em vigor em 5 de junho e foi baseada na legislação norte-americana.

A classificação permite que os Estados Unidos adotem sanções financeiras e outras medidas contra as organizações e pessoas que forneçam apoio material aos grupos. A designação, contudo, não constitui uma autorização automática para que tropas norte-americanas entrem no território brasileiro.

A própria legislação internacional estabelece limites para ações militares em território de outro país. Uma operação militar norte-americana no Brasil teria implicações diplomáticas e jurídicas muito maiores do que simplesmente a classificação de organizações criminosas como terroristas.

Especialistas também apontaram que a designação pode ampliar instrumentos de investigação financeira e cooperação internacional contra as facções, mas não significa automaticamente uma intervenção militar.

A comparação com a Venezuela

A hipótese levantada por Chiquini também se apoia no precedente venezuelano citado no material divulgado por ele. O advogado compara a situação brasileira com a operação norte-americana que, segundo sua narrativa, teria resultado na captura de Nicolás Maduro.

A comparação, entretanto, não comprova que uma ação semelhante esteja sendo planejada contra o Brasil.

A publicação do deputado Carlos Gimenez aumentou a repercussão política da declaração. Ao colocar Lula em uma imagem associada à captura de Maduro e escrever “O que o espera… #Brasil”, o parlamentar produziu uma mensagem de forte conteúdo político.

Chiquini interpretou a postagem como um possível sinal de que Washington poderia adotar contra Lula uma ação semelhante à realizada contra o líder venezuelano.

Até o momento, não há confirmação oficial de que a publicação de Gimenez represente uma ameaça formal ou uma operação planejada pelo governo norte-americano contra o presidente brasileiro.

O componente político da declaração

A fala ocorre em um momento particularmente sensível da política brasileira. A relação entre Lula e Trump se deteriorou nos últimos meses em razão de questões comerciais, sanções contra autoridades brasileiras e divergências relacionadas ao processo envolvendo Jair Bolsonaro.

A classificação do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos também ganhou dimensão política no Brasil. O senador Flávio Bolsonaro (PL) participou de articulações em Washington em defesa de uma postura mais dura dos EUA contra as organizações criminosas. A Câmara dos Deputados registrou oficialmente que Flávio esteve entre os parlamentares que apoiaram a medida norte-americana.

A decisão de Washington, contudo, não deve ser confundida com uma autorização para intervenção militar. São medidas jurídicas distintas.

Risco de desinformação

O principal ponto jornalístico da declaração de Chiquini é justamente a distância entre uma informação alegada e uma informação comprovada.

O advogado afirma ter recebido uma informação sobre a presença da Delta Force no Brasil, mas não identifica a fonte. Também não apresenta qualquer documento que permita verificar a existência da suposta operação.

Isso significa que a afirmação, até o momento, deve ser tratada como alegação não comprovada, e não como confirmação da presença de militares norte-americanos no território brasileiro.

A existência de cooperação entre órgãos de segurança brasileiros e norte-americanos é uma realidade distinta. A classificação do PCC e do CV, por exemplo, envolve mecanismos de sanções e pode afetar a cooperação internacional contra o crime organizado. Mas isso não comprova a presença de forças especiais dos Estados Unidos no país.

Eleições de 2026 entram no pano de fundo

A repercussão das declarações também ocorre durante a corrida presidencial de 2026, na qual Lula busca a reeleição e o campo bolsonarista apresenta Flávio Bolsonaro como candidato.

Por isso, qualquer alegação envolvendo uma possível ação dos Estados Unidos contra o presidente brasileiro tem potencial para produzir efeitos políticos relevantes.

A associação entre Trump, Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, PCC, Comando Vermelho e uma eventual intervenção militar norte-americana exige, portanto, comprovação documental antes de ser apresentada como fato.

Até agora, o que está comprovado é a classificação do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos como organizações terroristas e a existência de forte tensão diplomática entre Brasília e Washington.

Brasil tem cenário geopolítico diferente e mantém relações com China e Rússia

O cenário brasileiro é diferente daquele enfrentado por países que romperam relações ou adotaram alinhamento exclusivo com Washington. O Brasil mantém relações diplomáticas, comerciais e de cooperação com grandes potências que também disputam espaço estratégico com os Estados Unidos, entre elas China e Rússia. O país integra o BRICS ao lado das duas nações e utiliza o grupo como fórum de articulação política, econômica e financeira. O Banco Central destaca a participação conjunta de Brasil, Rússia e China no bloco e a existência de mecanismos de cooperação financeira entre os países.

A relação com Moscou também possui instrumentos formais de cooperação. Em junho de 2026, o governo brasileiro promulgou acordo entre Brasil e Rússia sobre proteção mútua de informações classificadas, abrangendo áreas de cooperação política, técnico-militar, econômica e outras.

Com Pequim, a aproximação econômica e diplomática também permanece ativa. Em 2026, Brasil e China celebram o Ano Cultural Brasil-China, enquanto os dois países mantêm acordos e iniciativas de cooperação em diferentes setores. O governo brasileiro também mantém acordos comerciais e negociações envolvendo mercados asiáticos.

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