Reaproximação entre presidente e comando do Senado ocorre após meses de tensão e pode abrir caminho para votações de interesse do Planalto antes das eleições
<OUÇA A REPORTAGEM>
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), voltaram a se reunir nesta quarta-feira (12), no Palácio da Alvorada, em Brasília, em uma tentativa de reconstruir a relação política entre o governo federal e o comando do Congresso. O encontro ocorreu após meses de desgaste entre os dois e teve como principal objetivo discutir a retomada de uma agenda de votações considerada prioritária pelo Palácio do Planalto.
<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp
A reunião foi apresentada por integrantes do governo como uma conversa de trabalho, mas tem peso político maior diante do impasse que vinha afetando a tramitação de propostas de interesse do Executivo no Senado. O afastamento entre Lula e Alcolumbre se agravou depois que os senadores rejeitaram a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em uma derrota expressiva para o governo.
Após o encontro, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que a comunicação entre o presidente e o comando do Senado foi retomada. “O diálogo foi retomado. Nós tratamos de tudo, colocamos todos os temas de interesse do Brasil. Alcolumbre vai ouvir os senadores”, declarou.
Segundo Guimarães, novas reuniões deverão ocorrer nos próximos dias. “Foi uma reunião produtiva. A institucionalidade está reconstruída”, afirmou o ministro.
O que está em jogo no Senado
A reaproximação acontece em um momento decisivo para o governo Lula. Com as eleições de 2026 se aproximando, o Planalto pretende acelerar a tramitação de projetos com potencial de impacto econômico e social e de medidas capazes de produzir resultados políticos para o governo.
Entre as prioridades está a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. A medida é defendida por setores governistas como uma pauta de forte apelo social e pode se transformar em uma das principais bandeiras do governo na disputa eleitoral.
Também estão no radar do Executivo a PEC da Segurança Pública e o projeto relacionado à exploração e utilização de terras raras. As duas propostas já passaram pela Câmara dos Deputados e dependem de avanço no Senado.
A pauta trabalhista, em particular, pode provocar forte disputa política. Enquanto o governo pretende associar o fim da escala 6×1 à melhoria das condições de trabalho, setores empresariais e parlamentares de oposição deverão discutir os possíveis impactos econômicos da mudança.
“Taxa das blusinhas” volta à pauta
Outro assunto que pode avançar é a medida provisória que altera a cobrança sobre compras internacionais de pequeno valor. A comissão mista responsável pela análise da MP deve ser instalada nesta quarta-feira (12).
A discussão envolve a chamada “taxa das blusinhas”, que estabeleceu cobrança de 20% sobre determinadas compras internacionais. O tema tem impacto direto sobre consumidores e também sobre empresas brasileiras que competem com produtos importados vendidos por plataformas digitais.
O governo pretende incluir ainda na agenda legislativa projetos considerados de apelo social, entre eles a proposta que criminaliza atos de misoginia.
A reunião desta quarta-feira foi o segundo encontro presencial entre Lula e Alcolumbre desde o afastamento. Na semana passada, os dois já haviam participado de uma conversa articulada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que também contou com a presença do ministro Cristiano Zanin.
Desta vez, participaram diretamente da reunião o ministro José Guimarães e a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE).
Reaproximação tem cálculo político
A retomada do diálogo ocorre em uma conjuntura em que tanto o governo quanto o Congresso precisam administrar uma agenda legislativa extensa antes do período eleitoral.
Para Lula, destravar propostas no Senado pode permitir que o governo apresente resultados concretos em áreas como trabalho, segurança pública, indústria e política social. Para Alcolumbre, a reaproximação preserva o papel do Senado como interlocutor central do Executivo e evita que o conflito institucional paralise a pauta.
O movimento, contudo, não significa que as divergências tenham desaparecido. O presidente do Senado continua comandando uma Casa formada por diferentes blocos políticos, muitos deles sem alinhamento automático ao governo.
A própria atividade legislativa recente mostra que Alcolumbre precisa administrar posições divergentes entre os senadores e negociar matéria por matéria. Em sessão registrada oficialmente pelo Senado, por exemplo, o presidente da Casa afirmou que determinados requerimentos poderiam ser incluídos na pauta após o cumprimento dos trâmites pelas comissões.
Planalto tenta transformar diálogo em votos
O principal teste da reaproximação será agora no plenário. Uma reunião política não garante maioria para as propostas do governo, e cada projeto deverá enfrentar negociações específicas.
O desafio de Lula será transformar o restabelecimento do diálogo institucional em apoio efetivo às matérias consideradas prioritárias. Para isso, o Planalto dependerá não apenas de Alcolumbre, mas também dos líderes partidários e dos senadores que formam a maioria necessária para cada votação.
A retomada da interlocução, portanto, representa uma tentativa de colocar fim a um período de tensão entre Executivo e Senado. O resultado concreto dessa aproximação será medido pela capacidade do Congresso de votar, nos próximos dias e semanas, as propostas que hoje estão no centro da agenda do governo.
Fonte: informações divulgadas pelo governo federal e pelo Senado Federal; reportagem de O Globo citada no material de origem. A atividade legislativa do Senado também é registrada oficialmente nas notas taquigráficas da Casa.



