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quinta-feira, março 5, 2026
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Magia e encantamento na estreia do novo Teatro Castro Mendes

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Magia e encantamento na estreia do novo Teatro Castro Mendes

Quando o maestro Victor Hugo Toro ergueu os braços e fez com que os músicos tocassem os primeiros acordes da Alvorada, da ópera Lo Schiavo, de Antonio Carlos Gomes, um misto de magia e encantamento tomou conta da plateia que lotava as dependências do Teatro Castro Mendes. Não, a emoção não era causada pela beleza da música nem pela excelência da interpretação. O nó na garganta que muitos sentiram era o avesso do mesmo nó que há cinco anos e três meses insistia em ficar entalado: era de satisfação e alegria, de “alma lavada” e de certeza de que, a partir deste 5 de dezembro de 2012, a cidade e seus cidadãos que somam mais de um milhão de almas, não teriam mais vergonha de ouvir dizer por aí que Campinas não tem teatro.
A noite de reinauguração do Teatro Municipal José de Castro Mendes foi assim: aplausos fartos e merecidos, gentis discursos, agradecimentos, lágrimas e uma música que atestava, de uma vez por todas, que a cidade não pode jamais abrir mão do seu melhor alimento cultural: nossa herança musical, concretizada num compositor que fez a Europa se encantar e numa orquestra que tem tudo para voltar a ser noticia até no New York Times, como aconteceu no ápice de suas performances nos anos 70 e 80 do século passado.
O prefeito Pedro Serafim que, mesmo sabendo dos riscos todos, prometeu solenemente entregar o teatro antes do fim do seu curto mandato, tinha o semblante do dever cumprido. Acompanhado da esposa e dos dois filhos, Serafim eclipsava quem estivesse por perto, fosse o excelente maestro Toro ou fosse mesmo o deputado federal e prefeito eleito Jonas Donizete. Os dois – mais o ex-candidato do PT, Márcio Pochmann – se sentaram no lugar a eles reservado na primeira fileira da plateia. Quando chamado ao palco para dizer algumas palavras para o público, Serafim fez questão de chamar o maestro ao lado dele, pediu a Jonas que também subisse e, depois de algumas palavras, chamou o engenheiro da Prefeitura responsável pela obra, Cláudio Orlandi e, ao homenageá-lo dando-lhe a palavra, o prefeito estendeu a homenagem a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que a obra ficasse pronta a tempo.
Serafim citou a secretária de Cultura, Renata Sunega que, praticamente, passou os últimos dias no teatro comandando as providências finais, o secretário de Infraestrutura, Dirceu Pereira Jr. , cuja Secretaria foi responsável pela obra, o secretário de Serviços Públicos, Valdir Terrazan, que “pegou na picareta” para deixar a praça em frente ao teatro pronta para a noite de estreia.

“38 anos”
O maestro Toro, ao discursar, revelou que inaugurou também um teatro em Montevidéu que a cidade havia perdido num incêndio. “A população de lá esperou 38 anos para ter o teatro de volta. Aqui, foram apenas cinco”, disse, arrancando aplausos da plateia.
Donizete discursou, afirmando que a amizade que tem pelo prefeito, que vem das bancadas da Câmara de Vereadores onde atuaram juntos, não foi arranhada pela recente disputa eleitoral. Falou da satisfação em ver a promessa de entregar o teatro cumprida e garantiu que tem planos para a vida cultural da cidade nos quais o Teatro Castro Mendes terá grande importância.
Serafim discursou, contou histórias de sua vida, revelou que seu avô foi oboísta da Sinfônica – que foi fundada em 1929 – antes da grande reforma pela qual ela passou no início dos anos 70, disse que sua filha lhe pediu a reforma do teatro porque a “professora disse que Campinas não tinha teatro” e afirmou que repartia naquele momento, com toda a cidade, o orgulho de nascer e viver nessa terra.
Antes dos discursos, a Sinfônica, além de presentear a plateia com uma sensível interpretação da Alvorada de Lo Schiavo, apresentou, fora do programa oficial, o Hino Nacional Brasileiro e o Hino de Campinas, que foram ouvidos pela plateia em pé.

Niza

Depois dos discursos, o mestre de cerimônia e diretor da Sinfônica, Marcos Padilha, convidou a todos para ouvir o espetáculo que viria a seguir, com obras de Carlos Gomes e interpretações da soprano mais querida da cidade, Niza de Castro Tank que, com sua figura aparentemente frágil, mas meiga e graciosa, chega a surpreender não apenas pela beleza de seu canto e pela afinação precisa, mas também pelo vigor e segurança que demonstra ao interpretar canções como “Addio”, “Mon Banheur”, “Vittoria! Vittoria!”, ou a alegre “Mama Dice”.
A primeira parte do espetáculo foi encerrada com a famosa Protofonia de “Il Guarany”, talvez o trecho mais conhecido de toda a obra de Carlos Gomes, popularizado que foi como o prefixo musical do programa A Voz do Brasil, transmitido em cadeia nacional por mutias décadas.
Durante o intervalo, no foyer, a plateia tecia comentários os mais variados, que iam desde a entrega (“finalmente”) do teatro, passando pela mudanças que melhoraram a acústica, os detalhes que embelezavam o interior, até a beleza da praça Corrêa de Melo, que foi revitalizada para compor e completar a paisagem daquele canto da Vila Industrial tão caro a todos os campineiros.
A segunda parte do espetáculo foi toda composta por trechos da ópera Colombo. Com uma introdução feita pelo maestro Toro, entraram no palco o barítono Sebastião Teixeira e o baixo Carlos Eduardo Marcos, para interpretar o dueto entre Colombo e o padre, à porta de um convento, quando o navegador revela seus sonhos de descobrir o caminho para as Índias. Muito aplausos após as árias escolhidas. Em seguida, o dueto amoroso, quase sempre presente nas obas de Carlos Gomes, teve Nadia Zanotello e Martin Muehle como intérpretes e os aplauso, ao final da performances foram intensos. Para encerrar a apresentação dos excertos da ópera, o maestro chamou ao palco todos os cantores, inclusive Niza de Castro, para o “Inno al Nuovo Mundo – Salve Immortal Conquistador”, que acabou juntando os altos acordes finais com os aplausos da público em pé. Estava encerrada a parte oficial da noite.
Mas o carinho do público por sua orquestra e pela soprano mais querida da cidade, fizeram com que ela atendesse aos pedidos de cantar “Quem Sabe?”, a modinha de Carlos Gomes que ganhou letra de Francisco Leite de Bittencourt Sampaio e se imortalizou na voz de vários cantores populares. Mais aplausos e muitos gritos de “bravo!”, encerraram a noite histórica, quando Campinas voltou a ter um teatro à altura de suas tradições culturais.

“Sucesso e vida longa”
Quando a porta do Teatro Castro Mendes foi aberta para a noite de reinauguração, a primeira pessoa a entrar foi a campineira Teresa Aguiar. Diretora de teatro, fundadora do Teatro Rotunda e do TAO – Teatro de Arte e Ofício – há 50 anos vivendo de e para o teatro, Teresa deu um passo além da porta e declarou: “Quero entrar com o pé direito para dar sorte. O que importa agora é que o teatro está aberto e no que depender de nós terá muito sucesso e vida longa”.
Já o artista e presidente da Associação dos Produtores Teatrais de Campinas (APTC), Ton Crivelaro, ele mesmo com espetáculo marcado para o novo Castro Mendes, “todos nós precisamos comemorar a reabertura do teatro. Temos que aplaudir e participar. Independente do governo, aquele que faz alguma coisa pela cultura merece nossos aplausos. Fico muito contente com o que está acontecendo”. Ton apresentará, no teatro, o espetáculo “Meu amigo Raul”, no dia 21 de dezembro, às 21h.
O gerente do SESC Campinas, Evandro Ceneviva, afirmou que é com grande alegria e expectativa que participava do evento de reabertura do teatro. “E esperando realizar muitas parcerias entre o SESC e a Prefeitura, além das que já temos hoje. Fico feliz também como cidadão por poder beber da fonte da cultura de Campinas. Dou os parabéns para a atual administração pelo esforço e excelente uso para a próxima”.
No intervalo da apresentação, a conselheira de Cultura e presidente do Fórum de Cultura de Campinas, Walquiria Sonatti, elogiou a programação de reabertura do teatro. “A Niza (de Castro) Tank fez uma apresentação linda e ouvir a Orquestra Sinfônica de Campinas é sempre muito emocionante. Está tudo muito bom e correspondendo às expectativas criadas”, comentou.
A advogada Elaine Zanotello – irmã da soprano Nadia Zanotello que se apresentou com a Sinfônica – ressaltou que a abertura do teatro em Campinas vai facilitar bastante para os próprios artistas se apresentarem. “Moro em Indaiatuba, mas minha vida profissional e social é em Campinas. E em função da carreira da minha irmã, que acompanho de perto, nos
deslocarmos constantemente para São Paulo, onde são apresentadas grandes obras. Só que agora, com esse novo teatro, esperamos que essas obras venham para cá permitindo que ela se apresente mais por aqui ”, disse Elaine.
Por volta das 23h30 da quarta-feira, o Teatro Municipal José de Castro Mendes estava praticamente vazio. Mas quem nele entrasse nessa hora talvez ainda sentisse as vibrações dos últimos acordes da orquestra, talvez um fio de voz de Niza ainda pairando no ar, talvez alguns aplausos que resolveram se perpetuar na noite à espera dos novos artistas que pisarão aquele palco com a sede de quem ficou muito tempo sem o principal alimento dos corações e mentes de todos nós. Que essa volta seja para sempre, é o desejo de todos aqueles que acreditam e querem dias melhores para Campinas.

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