Eleição nos EUA pode enfraquecer Trump e ampliar investigações sobre relações com a família Bolsonaro

0
75
Eleições nos EUA podem limitar poder de Trump e ampliar investigações sobre interferência no Brasil fOTO @WhiteHouse/Fotos Publicas

Disputa desta terça-feira (3) define o controle do Congresso americano. Vitória democrata poderá fortalecer investigações sobre possíveis interferências do governo Trump na política brasileira, incluindo episódios envolvendo Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

<OUÇA A REPORTAGEM>

Eleições legislativas desta terça-feira (3) renovam todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 do Senado; eventual mudança na maioria do Congresso pode ampliar a fiscalização sobre a Casa Branca e as relações com o governo brasileiro.

<Siga o canal do Jornal Local no WhatsApp>

Os eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para escolher os novos representantes do Congresso e governadores em 36 estados. As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, podem modificar a composição das duas casas legislativas e alterar a capacidade de o presidente Donald Trump conduzir sua agenda política até o fim do mandato.

A disputa envolve todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Também estão previstas eleições para governador em 36 dos 50 estados americanos. Atualmente, o Partido Republicano mantém maioria nas duas casas, com 218 deputados contra 214 democratas e 53 senadores contra 47.

O resultado será o primeiro grande teste eleitoral nacional da administração Trump desde a eleição presidencial. Caso os democratas conquistem uma ou ambas as casas, poderão ampliar a fiscalização das decisões do Executivo, convocar autoridades, abrir investigações parlamentares e dificultar a aprovação de propostas do presidente.

A possibilidade de mudança no Congresso ocorre em meio à insatisfação de parte do eleitorado com o custo de vida, a inflação e a participação dos Estados Unidos na guerra contra o Irã. A elevação dos preços dos combustíveis também entrou no debate eleitoral.

Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 26 de outubro registrou 32% de aprovação ao governo Trump. No levantamento sobre a intenção de voto para o Congresso, os democratas apareciam com 47%, contra 36% dos republicanos entre eleitores registrados. Os números representam um retrato daquele período e não antecipam necessariamente o resultado das urnas.

Trump intensificou a participação na campanha dos candidatos republicanos e percorreu diferentes regiões do país para pedir apoio aos aliados. O presidente também voltou a questionar aspectos da segurança eleitoral americana, embora não tenha apresentado provas para sustentar suas acusações de fraude nas eleições de 2020.

O poder de fiscalização do Congresso

A mudança na composição do Legislativo pode ter consequências diretas para o funcionamento do governo. A Câmara dos Representantes tem atribuições importantes de fiscalização, enquanto o Senado participa da aprovação de indicações para cargos de alto escalão e para o Judiciário federal.

Uma maioria democrata na Câmara poderia ampliar a abertura de comissões de investigação sobre decisões da administração Trump, incluindo políticas migratórias, gastos públicos e a condução da guerra contra o Irã.

No Senado, uma eventual mudança de maioria também poderia dificultar a confirmação de indicações feitas pelo presidente.

Entretanto, a perda de maioria parlamentar não retira automaticamente os poderes constitucionais do presidente. A política externa, por exemplo, continua sob forte influência do Executivo, embora o Congresso tenha instrumentos para fiscalizar decisões, aprovar recursos e impor limites legislativos.

Brasil entra no debate eleitoral americano

A disputa americana também tem repercussões para o Brasil. Desde o início de 2026, parlamentares democratas vêm questionando decisões da administração Trump relacionadas ao governo brasileiro, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao processo eleitoral que terminou com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em setembro, 31 parlamentares democratas enviaram uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, questionando medidas do governo Trump que, segundo os congressistas, poderiam representar interferência na eleição brasileira.

Entre os episódios mencionados estavam as tarifas comerciais impostas ao Brasil, as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, a revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti e a atuação de autoridades americanas em assuntos relacionados à política brasileira.

Em outubro, novos questionamentos foram encaminhados ao Departamento de Estado. Os parlamentares cobraram explicações sobre a revogação do visto da embaixadora e sobre eventuais contatos entre integrantes do governo americano e representantes da família Bolsonaro.

Caso Flávio Bolsonaro amplia pressão sobre Washington

Um dos episódios que passaram a integrar a cobrança dos democratas envolve o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Lula na eleição presidencial.

No dia 29 de outubro, 25 deputados democratas encaminharam uma carta a Marco Rubio pedindo esclarecimentos sobre uma possível participação do governo americano na saída de Flávio do Brasil e em sua entrada nos Estados Unidos.

Os parlamentares querem saber quem autorizou a emissão dos vistos para o senador e seus familiares, quando os documentos foram concedidos e se as autoridades americanas tinham conhecimento das determinações judiciais brasileiras que restringiam suas viagens internacionais e determinavam a entrega dos passaportes.

A carta também questiona se funcionários do Departamento de Estado, da Casa Branca ou de outras agências americanas mantiveram contatos com Flávio, seus familiares, advogados ou assessores para tratar da viagem.

Outro ponto levantado é a eventual participação de autoridades americanas na organização logística dos deslocamentos, incluindo voos, transporte e procedimentos de entrada nos Estados Unidos.

Os congressistas solicitaram respostas por escrito e uma reunião com representantes do Departamento de Estado até 13 de novembro.

A Associated Press informou que uma autoridade do Departamento de Estado confirmou a concessão de vistos a Flávio e familiares. A agência também registrou que o senador estava sob investigação no Brasil por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal, acusações que ele nega.

Até o momento, a existência de uma carta parlamentar e a concessão dos vistos não comprovam, por si só, que o governo Trump tenha organizado ou financiado a saída do senador brasileiro. É justamente essa eventual participação que os deputados querem esclarecer.

Meta também está na mira dos democratas

Outro assunto que pode ganhar espaço nas investigações parlamentares é a atuação da Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, durante a eleição brasileira.

Parlamentares democratas questionaram diferenças no alcance de publicações e conteúdos ligados aos candidatos brasileiros. A empresa atribuiu problemas de distribuição de determinadas publicações a questões técnicas.

A investigação pretendida pelos congressistas busca esclarecer se houve tratamento desigual, quais critérios foram utilizados pelas plataformas e se existiu alguma relação entre decisões empresariais e interesses políticos.

Uma eventual mudança na maioria do Congresso americano poderá dar aos democratas maior controle sobre comissões parlamentares e instrumentos de fiscalização. Isso, entretanto, dependerá da decisão dos líderes partidários de transformar as cobranças já encaminhadas ao governo em investigações formais.

O resultado das eleições desta terça-feira também poderá influenciar a relação entre Washington e Brasília nos próximos dois anos, período em que o governo brasileiro terá de administrar os efeitos das decisões comerciais, diplomáticas e políticas da administração Trump.

A eleição americana, portanto, não escolherá apenas os integrantes do Congresso. O resultado definirá também o grau de sustentação parlamentar que Donald Trump terá para conduzir sua política interna e externa até o encerramento do mandato.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui