Vi vários Senhores conferindo números e bilhete, entre a Casa Lotérica e o Bar Central. A emoção da aposta e palpite acontece toda semana. Existem acontecimentos de sempre, rotina que se repete. Observar o que é rotina exige atenção, aquela atenção do garimpeiro que observa raro diamante em montes de pedrinha e areia lavada. Observei alguns temas a partir do Bar Central. Sempre que eu pergunto, João Peria me diz: “papo de Bar num É sobre tema sério.” E ele lembra alguém, que disse: “se fosse pra assunto sério, eu nem vinha no Bar — tomava umas Brahma lá em casa”. Eu digo pra ele que, sabendo ouvir, dá pra garimpar assunto interessante. Mas aí tem que garimpar sempre, observar é não funcionar no piloto automático.
O que acontece sempre e faz a substância dos dias aconteceu hoje. O Zé Gordo exigiu duas coisas: o lugar dele e respeito ao Corinthians, o Rogério (do táxi) começou cedo e vai até noite… pagar as conta é isso aí!., Seu Toninho do açougue sempre numa boa discussão (que nunca termina no mesmo dia) com Seu Roberto, a inteligência sempre bem humorada do Marinho (filho do Mário), o Pernambuco sempre com pressa pra alguma coisa, o Gera sempre fazendo contas e números, o Itatiba, que é bom pintor, pediu um cafezinho… a Tucinha (a Lucia, Padaria da Landa) atende sempre bem:- hoje atendeu o Zeca, que trouxe o netinho, depois o meu Xará, que trouxe a filhinha Valentina, atendeu o engenheiro Paes…
No Bar em frente conversei com dona Dolores (esposa do Seu Agostinho). Ela disse pro atendente… “serve café a ele, enquanto conversamos. O que é que precisa ser observado?. Muita gente ainda não aprendeu a cuidar do lixo!. Nas calçadas da rua Emilio José Salim tem entulho e sobras de construção. Tem um vizinho que botou prego numa árvore e pendura lixo ali… tem uma calçada na rua da Creche (Zuleika) que recebe lixo dos moradores. Olha Gente, assim num dá! Quem faz caminhada precisa desviar-se de entulho e lixo. E não é o caso de culpar a Prefeitura: os moradores precisam responsabilizar-se.” Ela tem razão. OLHA GENTE!. É preciso olhar.
Depois, enquanto eu escrevia, chegou o Seu Ditinho, de Joaquim Egideo. Hoje em dia (ele me disse) é preciso prestar atenção no que dá mais vida ao distrito. O Chico Fávero e a Natasha são pessoas assim. Ele por causa do empenho, no Carnaval dedicou meses de trabalho; ela pela beleza e simpatia dos Bonecos, das Máscaras, dos Boizinhos e enfeites infantis. Isso dá mais vida.
Seu Vicente, o mineiro que se diz paranaense, tirou uma conclusão: “no Bar Central, conforme for falado fica sério”. E aí comentou que tá fazendo lingüiça da boa e que é pra gente buscar verdura na chácara dele. Depois chegou o Mário Rovere. Boa Sexta feira, Seu Mario!. Ele responde meio rindo:- a hora que ganhar na Loteria fechamos o Bar por 6 meses. Férias de 6 meses, todo mundo:- as cozinheiras, nós aqui do balcão… e os freguês. Depois que enjoar (das férias) a gente volta.
Saber costurar o de todo dia com cada dia diferente é uma lição. A gente aprende a relacionar o perto e o longe. O que parece apenas rotina é mais do que a repetição da corda de um relógio. A moça do tempo na TV dizia o de sempre “temperatura máxima no dia de hoje: 30 graus em Macapá (Macapá… onde existe isso?) e a mínima: 17 graus em Curitiba. Ao lado, perto da porta, tinha alguém que ouviu na televisão: um Indio foi eleito presidente na Bolívia, a Mulher eleita presidenta no Chile… e tem o nosso presidente operário!. E disse assim: N´onde vai dar tudo isso?.
Aprendemos a observar, como quem espreme o suco de existir nos dias. Aprendemos com o Seu Pedro, que passou e cumprimentou dizendo “é isso aí. A gente tá se encontrando, o dia tá bom!”.
professor Adriano S. Nogueira,jornalista, pesquisador Filosofia da Ciência
O que é que deu ontem?. Na Federal deu Águia…
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