Documentos sigilosos revelam que Itamaraty acionou dez embaixadas em caráter “urgentíssimo” enquanto leitos de UTI colapsavam no Brasil
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O governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) articulou a abertura de mercado no exterior para ventiladores pulmonares produzidos em solo nacional durante um dos períodos mais graves da pandemia de Covid-19. Em 17 de junho de 2020, o Ministério das Relações Exteriores, sob a gestão de Ernesto Araújo, despachou ordens a dez embaixadas brasileiras na América do Sul para identificar potenciais compradores e estimar a demanda pelos equipamentos, preparando uma ação de promoção comercial.
A revelação decorre de um lote de telegramas diplomáticos obtidos pela agência Fiquem Sabendo via Lei de Acesso à Informação. Entre os documentos, consta uma circular reservada classificada pelo próprio Itamaraty como “urgentíssimo”, orientando as representações na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela a consultarem governos, hospitais e companhias privadas sobre as quantidades e especificações técnicas desejadas.
O Itamaraty sustentou a medida alegando a “possibilidade de que, em breve, a produção brasileira de ventiladores pulmonares supere a demanda interna”. Contudo, o texto oficial não apresentou qualquer estudo, projeção ou dado estatístico que embasasse a suposta sobra de suprimentos.
A investida diplomática ocorreu em meio ao agravamento da crise sanitária no país. No mesmo dia 17 de junho de 2020, o Brasil registrou 1.269 mortes por Covid-19 em 24 horas, acumulando mais de 46.510 óbitos e 955 mil infectados, com seis estados operando com ocupação de UTIs superior a 80%. No mês seguinte, o país contabilizou 32 mil mortes pela doença, assumindo o topo do ranking mundial de mortalidade no período.
A tese de excedente contrapunha-se à escassez vivenciada no próprio mercado nacional. Até o final de maio daquele ano, apenas 1.612 dos 14,1 mil respiradores contratados pelo governo federal haviam sido entregues, gerando cobranças de governadores e prefeitos. Simultaneamente, relatórios confidenciais da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) previam o colapso do sistema de saúde e a falta iminente do aparelho em Manaus, contrariando a versão oficial propagada pelo Executivo.
Ademais, a movimentação do Itamaraty desrespeitava a legislação vigente: uma lei de abril de 2020 sancionada pelo próprio presidente vetava a exportação de equipamentos médicos vitais. Registros mostram que a Embaixada do Brasil em Quito (Equador) chegou a intermediar o contato entre a seguridade social equatoriana e fabricantes nacionais, embora os documentos não confirmem a efetivação ou entrega das vendas



