Treinamento multinacional expõe cooperação estratégica, mas também revela disputa geopolítica sobre crime organizado e soberania brasileira às vésperas das eleições de 2026

Um exercício militar multinacional envolvendo forças do Brasil e dos Estados Unidos ocorre em meio a um cenário de tensão diplomática e debate sobre a possibilidade de Washington classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. O treinamento, chamado Cooperación XI, reúne militares de diferentes países para simulações de resposta a desastres, mas também serve para testar a integração operacional entre tropas e sistemas de comando.
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Embora oficialmente apresentado como um exercício humanitário, o treinamento permite que pilotos, comandos e centros de operações aprendam a atuar de forma coordenada em cenários multinacionais. A cooperação militar entre os dois países foi destacada recentemente pelo próprio Exército dos Estados Unidos, que publicou relatório institucional ressaltando o histórico de exercícios conjuntos realizados ao longo das últimas décadas com as forças brasileiras.
Padronização militar e integração operacional
De acordo com militares norte-americanos, treinamentos bilaterais entre Brasil e Estados Unidos envolvem diferentes cenários operacionais, incluindo missões humanitárias, operações de paz, integração de sistemas de comando e controle e treinamento de combate em zonas urbanas. O objetivo é padronizar doutrinas e ampliar a interoperabilidade entre tropas de diferentes países.
Nos últimos anos, os exercícios conjuntos passaram a incluir simulações de combate aéreo, controle do espaço aéreo, integração de sistemas de comunicação e coordenação de missões operacionais entre a Força Aérea Brasileira e forças militares norte-americanas.
Entre os principais treinamentos multinacionais está o UNITAS, considerado um dos maiores exercícios navais do continente. A operação envolve tiro real, manobras anfíbias, inspeções navais e simulações de combate marítimo.
Outro treinamento planejado foi a Operação CORE, que ocorreria em Pernambuco com cerca de 350 militares dos dois países, mas acabou suspensa após tensões diplomáticas registradas em 2025.
Exercícios semelhantes também costumam ocorrer durante a Operação Formosa, organizada pela Marinha do Brasil, que em algumas edições reúne mais de 2.500 militares em simulações de operações expedicionárias e de reação rápida.
Debate sobre terrorismo e facções brasileiras
A participação de militares norte-americanos ocorre em um momento de intensificação do debate nos Estados Unidos sobre a possibilidade de classificar facções brasileiras como organizações terroristas. Entre os grupos citados nas discussões estão o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
Pela legislação norte-americana, grupos classificados como Foreign Terrorist Organizations passam a ser alvo de sanções financeiras internacionais, bloqueio de ativos, ampliação da cooperação de inteligência e operações internacionais de combate ao terrorismo.
Autoridades brasileiras, porém, resistem à classificação. A avaliação no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva [PT] é que essa medida poderia abrir espaço para ações unilaterais e ampliar a interferência externa em questões de segurança interna.
Histórico de tensão entre Washington e Brasília
O contexto diplomático recente ajuda a explicar a sensibilidade do tema. Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro [PL], a relação militar entre Brasil e Estados Unidos passou por momentos de atrito institucional.
Nos meses que antecederam as eleições de 2022, comandantes militares norte-americanos chegaram a viajar a Brasília para alertar a cúpula das Forças Armadas brasileiras de que o governo do então presidente Joe Biden não apoiaria qualquer tentativa de ruptura democrática no país.
Parlamentares do Senado norte-americano também chegaram a apresentar propostas prevendo a suspensão de programas de cooperação militar caso houvesse ruptura institucional no Brasil.
Após a vitória de Lula nas eleições de 2022, Washington reconheceu rapidamente o resultado e houve retomada do diálogo diplomático e militar entre os dois países.
Mudança de cenário com Trump
O cenário voltou a se tornar mais sensível após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos em novembro de 2024. Desde então, episódios de tensão voltaram a aparecer nas relações entre Washington e Brasília, especialmente em temas ligados ao combate ao crime organizado e à segurança regional.
A possibilidade de classificar facções brasileiras como organizações terroristas passou a ser discutida dentro da Casa Branca como forma de ampliar instrumentos de combate ao crime transnacional.
Nos bastidores do governo brasileiro, porém, cresce a avaliação de que esse debate pode ser utilizado também como instrumento de pressão diplomática. Assessores do Palácio do Planalto avaliam que a discussão sobre terrorismo pode abrir caminho para maior ingerência externa em assuntos internos e influenciar o ambiente político brasileiro às vésperas das eleições de 2026.
Diante desse cenário, a estratégia do governo Lula tem sido ampliar canais de cooperação internacional no combate ao crime organizado e tentar evitar que o tema seja apropriado politicamente no debate interno.




