Investigação aponta falhas de governança, transações com alto risco e possível sustentação financeira irregular ao Banco Master

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A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira (16) o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, durante nova fase da Operação Compliance Zero. A ação investiga suspeitas de falhas graves de governança e a realização de negócios considerados sem lastro com o Banco Master. Ao todo, foram cumpridos sete mandados.
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Costa já havia sido afastado do cargo por decisão judicial e posteriormente demitido em novembro de 2025 pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), após o avanço das investigações. A nova fase da operação ocorre após o aprofundamento de provas reunidas por auditorias independentes e órgãos de controle.
Auditoria expõe pressão interna e decisões fora do rito
Relatório produzido pelo escritório Machado Meyer, com apoio da consultoria Kroll, reforçou indícios de irregularidades nas operações. Segundo o documento, aquisições bilionárias de carteiras do Banco Master eram tratadas internamente como “negócio do presidente” e realizadas sob চাপo de urgência, com decisões tomadas no mesmo dia, sem անցo adequado pelos órgãos de governança.
A auditoria também aponta que operações teriam sido fragmentadas para evitar análise do Conselho de Administração, além da ausência de relatórios obrigatórios previstos em contrato — o que pode configurar violação de नियम internos e normas do sistema financeiro.
Volume bilionário e ativos sob suspeita
Entre 2024 e 2025, cerca de 83% das operações do BRB envolveram ativos ligados ao Banco Master. O banco público adquiriu aproximadamente R$ 21,9 bilhões em carteiras dessa instituição.
Desse total, cerca de R$ 13,3 bilhões apresentam indícios de inconsistências, como ausência de lastro, falhas documentais e registros considerados incompatíveis — incluindo contratos inadimplentes e até operações vinculadas a pessoas já falecidas, segundo a apuração.
Suspeita de socorro financeiro disfarçado
Investigadores da Polícia Federal identificaram anotações que sugerem que as aquisições teriam como objetivo sustentar financeiramente o Banco Master, que enfrentaria dificuldades para honrar títulos no mercado.
Uma das linhas de investigação aponta que ativos teriam sido adquiridos da Tirreno Consultoria sem pagamento e posteriormente repassados ao BRB. A apuração busca esclarecer se houve aceitação desses papéis sem a devida verificação documental.
Após o Banco Central do Brasil barrar a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB e restringir novas operações, parte dos ativos teria sido substituída — ainda assim com indícios de irregularidades.
Operações societárias e entrada de investidores no radar
Outro eixo da investigação envolve operações que resultaram na entrada de Daniel Vorcaro e associados no capital do BRB. Em 2024, o banco realizou aumentos de capital que somaram R$ 1 bilhão.
Segundo a auditoria, a estrutura dessas operações pode ter permitido a participação indireta de fundos ligados ao próprio Banco Master, o que inicialmente não seria permitido. Após as movimentações, Vorcaro, Maurício Quadrado e João Carlos Mansur passaram a deter 23,5% do capital do banco.
O relatório aponta indícios de uma “operação triangulada” com elementos que sugerem simulação para viabilizar as aquisições.
Defesa nega irregularidades
Em depoimento à Polícia Federal, em dezembro de 2025, Paulo Henrique Costa afirmou que não havia “evidência concreta” de problemas nas carteiras adquiridas. Segundo ele, as decisões não foram individuais e os instrumentos utilizados são comuns no mercado financeiro.
A defesa sustenta que a governança do BRB é colegiada, com մասնակցação de diretoria, conselhos e comitês técnicos, e que todas as operações seguiram práticas institucionais.
Bastidores e possíveis implicações
A investigação também levanta questionamentos sobre o nível de supervisão interna e o papel dos órgãos de controle do banco. Especialistas ouvidos por fontes do mercado avaliam que, caso confirmadas, as irregularidades podem caracterizar desde gestão temerária até estruturação deliberada de operações para transferência de risco ao banco público.
Há ainda avaliação de que o caso pode ter desdobramentos políticos, considerando que Ibaneis Rocha (MDB) foi responsável pela indicação de Costa ao cargo em 2019. Até o momento, não há indícios formais de envolvimento direto do governador nas irregularidades investigadas.
As apurações seguem em andamento e devem avançar sobre a responsabilização individual de gestores e eventuais conexões entre instituições financeiras e estruturas societárias envolvidas.




